OS GAYS TAMBÉM AMAM
Roberto é um jovem que viveu e vive grandes amores e paixões. Está sempre
de bom humor, com sorriso no rosto, cantarolando e sendo bem quisto pelo seu
circulo de amizades. Sempre é chamado pelos amigos para saídas, conversas,
trabalhos em grupo da faculdade (afinal o rapaz também é inteligente e
comprometido com seus estudos).
Um dia, Roberto estava numa mesa de bar conversando com Fernando, um
colega de trabalho. Papo vai, papo vem; cerveja vai, cerveja vem e ambos se
soltando cada vez mais. A intimidade que anteriormente era algo quase que
impensável estava vindo aos poucos junto com os goles de cerveja que ambos tomavam.
- Eu não entendo poesia, não sei como você consegue trabalhar com isso
Roberto.
- Como assim não as entende?
- Olha, todo poeta fala quase sempre a mesma coisa. Sempre sofre por
amor, cultua uma mulher inatingível... sofre, sofre, sofre, deseja morrer
porque ela não sabe ou não “dá bola” para ele, não sabe o que faz e “pimba”!
Surge um poema dedicado a todo esse sofrimento.
- Ah! Mas isso não é bem assim Fernando... O poema, não necessariamente,
significa que o poeta passou por aquilo. Pode ser invenção. Um dia prometo te
ensinar a ler poesia. Você vai gostar. Sei fazer isso muito bem.
- Olha como você fala comigo! Vão pensar que você está dando em cima de
mim.
- E se eu estiver? Qual o problema? (risos).
- Para com isso! Você sabe que eu não jogo nesse time.
- Eu sei, eu sei. Falei de brincadeira.
- Mas eu continuo sem entender o porquê de tanta admiração por poesias
chorosas. Por que ficar achando belo esse sofrimento?
- Olha, meu caro amigo, você nunca se apaixonou na vida?
- Que eu saiba não. (bebeu mais um gole de cerveja) Toda mulher que eu
quis eu tive. Sou gostoso, faço academia cinco vezes na semana, não há uma que
não me resista.
- Nem um homem que o resista também (risos).
- Já falei para você parar com essas brincadeiras Roberto.
- Tudo bem, eu prometo que paro... Agora, eu não consigo acreditar que
você nunca se apaixonou. Nunca ficou nervoso por esperar a garota que você
tanto desejava aceitar um convite seu?
- Claro que não! Me garanto pô! Elas é que ficam nervosas para saber se
as acho bonitas ou não... (risos).
- Sinceramente não entendo... Você já namorou alguma vez?
- Já, mas não gosto... Ela me cobrava, queria sempre sair comigo e eu
querendo ficar com os amigos, sabe como são os homens né? Ah! Esqueci você é
gay...
- Opa! Não é porque sou gay que não vou saber como são os “homens”. Não
se esqueça que também sou um, e muito! Comparado com outros que tem por ai...
- Não me leve a mal, mas eu quis dizer que eu gosto de estar com a
rapaziada, jogar aquele futebol, comentar sobre as mulheres que passam e ficam
vendo a gente jogar... Sabe como é, coisa de macho.
- E você pensa que só porque eu sou gay que não gosto de futebol? Gosto e
jogo muito bem! Sou um excelente atacante para o seu governo.
- Ah você joga? Nossa nunca pensei nisso...
- É estou percebendo a sua limitação quanto a essa questão... Porém vamos
deixar esse assunto para outra hora, me conte mais a respeito desse seu jeito
de lidar com as mulheres.
- Cara, vou ser sincero. Eu namorava e a traia mais do que se eu estivesse
solteiro. Tá, isso não seria traição, mas eu quero dizer que ficava com mais
mulheres estando namorando do que solteiro. Não sei dizer o porquê, só sei que
só uma não me satisfazia.
- Entendo... Porém há algo que me incomoda... Por que você aceitou o namoro
então?
- Primeiro que todos os meus amigos estavam namorando na época, só eu
ficava sozinho, ia à night sozinho. Ficava segurando vela quando ia com um
casal de amigos. Era muito chato. Daí, eu resolvi arrumar uma namorada. Conheci
através da namorada de um amigo meu, o Ewerton. Ela era linda, uma loucura na
cama, mas chata, muito chata!
(risos altos de Roberto)
- Do que você está rindo?
- De como vocês, heteros, não tem a possibilidade de viver uma paixão de
verdade.
- Como assim? Temos coração, não pensamos só com a cabeça do “pau” como
vocês.
- Eu não penso só com a cabeça do “pau”. Ao contrário do que todo mundo
pensa os gays amam e amam muito. Talvez sejam os que mais sabem amar nesse
mundo louco que estamos vivendo. Só nós sabemos o que é amar e ficar remoendo
uma paixão por não saber se o outro cara também é gay, se terá problemas em
assumir uma relação, ter de ficar se escondendo, mentindo para o mundo... Tudo
é contra a união gay...
- Mas eu já ouvi historias de que vocês metem até em saunas, baladas,
etc.
- Meu caro Fernando, meter todo mundo mete hoje em dia e onde bem
entender. Isso não é exclusividade nossa. E amar está muito mais além do que
simplesmente ir e meter com fulano. Amar é se embebedar de loucura, ficar sem
ar, sem os pés no chão. É não saber o que fazer quando se está diante do ser
amado. É ficar com a boca seca, ficar gélido. Sentir borboletas na barriga
quando é convidado para o lugar onde o paquera vai estar.
(Um tempo para reflexão é estabelecido inconscientemente durante um breve
silêncio... E mais um gole de cerveja é tomado).
- Quanta palhaçada! Comigo eu olho para a cara da garota da na balada,
chego, beijo, pergunto o nome (as vezes nem isso) e vou pro motel. Se for bom
passo o meu telefone e sempre procuro para repetir a dose, mas quando vejo que
ela ta pegajosa de mais... Parto para outra!
- Amar não é assim... Olha eu por exemplo. Fico admirando um rapaz há
muito tempo e ele nem me nota. Mas a beleza dele me encanta. Na verdade não é
bem o corpão que ele tem que me chama a atenção. É o jeito que ele me olha (sem
me desejar), o sorriso que ele dá, essas coisas me deixam doido.
- E por que você não fala com ele? Palhaçada!
- Não é assim que as coisas são... Como eu disse, nós, os gays, é que
sabemos o que é amar. Sofremos em silêncio, porque dependemos de muitos fatores
para desenvolver uma paixão. Precisamos saber se o cara é gay, se é assumido ou
não, se temos que fingir que somos “amigos” em determinadas situações, às vezes
até chega-se a namorar mulheres para poder tapear os desconfiados.
- Eu não sei viver assim não...
- A gente também não, mas temos de aprender... Fazer o quê?!
Ambos ficaram em silêncio e assim permaneceram durante algum tempo.
Olhavam o vazio, as pessoas que passavam pela vitrine do bar, mas não se encaravam.
Parecia que um tinha despido a alma para o outro. Pediram mais uma rodada de
cerveja e enquanto esperavam ficavam pensando em silêncio.
- O garçom está demorando com a cerveja, não está Roberto?
- Realmente. Acho que ele se esqueceu...
Mais um momento de silêncio. Esse espaço se deu até o momento em que o
garçom trouxe as duas cervejas e um olhou para o outro, ergueram as canecas e
brindaram. Fernando depois de tomar um gole disse:
- Roberto, eu posso fazer uma pergunta?
- Claro, faz ai.
- Por curiosidade, como é esse cara que você está apaixonado?
Roberto colocou sua caneca na mesa e quase engasgou com a cerveja. Não
esperava essa pergunta e nem se quer imaginava como respondê-las ao amigo.
Ficou pensativo por instantes como se procurasse palavras para camuflar aquilo
que realmente sentia. Procurava adjetivos nos tantos poemas que lera. Mas não
os encontrava... Fernando parecia se envergonhar da pergunta e quando estava
pronto a mudar de assunto, Roberto o responde:
- Olha, ele é alto, na verdade um pouco mais alto que eu, tem um físico
invejável, é bonito, sabe conversar, apesar de ser um pouco tímido para
conversas. Acho que se dá bem nas cantadas, mas conversar se sente um pouco
preso. Tem cabelo preto, olhos castanhos, é branco...
- Trabalha com você?
- Trabalha, mas quase não tenho contato com ele. Só umas duas ou três
vezes que saímos... Duas foram até com uns amigos, então nem tivemos uma
aproximação...
- Sei... E me diz uma coisa, por que você não se declarou até agora?
- Porque ele não é gay. O que adianta eu ficar me declarando para alguém
que eu sei que nunca poderei ter? Por isso que eu te digo o que os gays sofrem
com relação ao amor. Além de todo o preconceito existente ainda corremos o
risco de nos apaixonarmos por heteros.
- E como você sabe se o cara é ou não é?
- Isso tem várias maneiras, intuições, etc. Esse, ele mesmo me disse que
é hetero convicto.
- E se ele estiver mentindo?
- Mente bem então, porque eu não reparei nada... Mas eu sou assumido,
todo mundo sabe que sou gay, não sou afeminado, quem me vê na rua nem fala,
porém todos que trabalham comigo sabe. Ele poderia muito bem falar comigo.
- Mas ele pode está com medo, pode ser algo novo para ele.
- Ah, não sei não...
- Sabe de uma coisa Roberto, pensando bem essa sua descrição bate
bastante comigo, sabia?
Roberto engoliu a seco mais uma vez as palavras que Fernando disparou
contra ele. Dissimilou um sorriso sem jeito e deu prosseguimento a conversa a
fim de tentar disfarçar aquilo que estava evidente.
- É mesmo? Nem percebi...
- Deve ser coincidência.
- Vamos pedir outra rodada de cerveja, Fernando?
- Não, preciso ir agora...
- Mas por que vai tão cedo?
- Não sei se é a bebida, mas estou começando a me apaixonar agora mesmo.
- Oh! É sério?! Por quem? Já sei! Por aquela menina que está na mesa da
frente né? Muito bonita mesmo... Se fosse hetero eu pegava. (risos).
- Não, não é ela...
- Então é a da esquerda? Mas ela parece está comprometida... Safado você,
heim?!
- Também não é ela...
- Então quem é?
- Na verdade eu sempre fui apaixonado perdidamente por essa pessoa, mas
nunca pude falar. Sei lá... Tinha medo. Agora vejo que é normal. Que realmente
amo. Procuro conforto e uns momentos de amnésia durante minhas paqueras, por
isso elas não duram...
- Não entendo... De quem você está falando?
- Ah! Você sabe...
- Fernando, não tem mais ninguém aqui além daquelas mulheres e nós... Vai
dizer que você está apaixonado por mim? (um sorriso tímido e revelador nasce
nos lábios de Roberto).
- Já falei para você parar com essas brincadeiras que eu não gosto.
- Relaxa, só foi brincadeira.
- Pois é, mas não sabe que toda brincadeira tem fundo de verdade? Adeus,
Roberto.
Fernando se levantou bruscamente da mesa e saiu andando. Deixou apenas o
dinheiro para pagar sua conta e uma lágrima que escorrera do seu rosto enquanto
pronunciava aquelas duras palavras que cortavam seu coração. Roberto permaneceu
imóvel durante um bom tempo, congelado, com a boca seca e sentindo borboletas
na barriga.
Carlos Roberto dos Santos Menezes